
oi manequim, depois abriu a Hadja Models. Acabou com o que estava errado à sua volta: roupa atirada para o capim, gritos antes dos desfiles e outros abusos. Os modelos, sublinha, são pessoas. Por isso construiu um negócio baseado na dignificação dos agenciados. Nove anos depois, são quase duas centenas a trabalhar com Hadjalmar El Vaim. Ainda lhe sobra ambição? Claro: quer ter a maior agência de modelos de África.
Que balanço faz dos nove anos da Hadja Models?
Muito positivo. São nove anos de conquistas e realizações. Sinto-me muito feliz de ver o crescimento da agência até aqui.
Alguma vez pensou desistir?
Não. Sempre soube que ia encontrar inúmeras dificuldades e sempre as senti na pele desde o início. Então sabia exactamente onde me estava a meter e o quão seria difícil. Mas já tive momentos de desânimo. Já fiquei em baixo, tive menos força, menos foco. Mas desistir nunca, é isto que quero fazer para o resto da vida.

Está feliz com o que já atingiu?
Comecei com quatro modelos, hoje tenho 186. Tenho uma equipa sólida, que me passa uma credibilidade muito grande. Não tenho como olhar para tudo isto, ver o quanto cresceu e não me sentir feliz.
Qual a sua maior vitória?
Todas. Não consigo indicar uma. Todas tiveram um sabor muito especial. Não há conquistas maiores ou menores, há conquistas. Sou muito feliz com todas as alcançadas.
E derrota?
Talvez tenha existido, mas não me vem agora à cabeça. Sou muito mais de me deixar afectar pelo positivo do que pelo negativo. As coisas negativas esqueço-me rápido e as coisas felizes marcam-me mais.
Até onde pretende chegar com a agência?
Pretendo chegar ao número 1 de África, porque sei que temos qualidade, inteligência e capacidade para tal. Trabalho com profissionais muito dedicados, tenho manequins de excelência, com perfil invejável, com sonhos e vontade de vencer. É possível chegarmos até ao lugar cimeiro, estarmos entre os melhores. De África e, por que não, um dia do Mundo.

Que requisitos deve ter quem deseja ser modelo na sua agência?
Personalidade, carácter, dignidade, valores. O resto trabalha-se. Beleza, o peso, isso são coisas que se podem trabalhar. Mas é fundamental que as pessoas tenham bases muito sólidas. A personalidade faz toda a diferença na moda. Pessoas bonitas, hoje em dia, encontramos em qualquer esquina. Agora pessoas com valor é mais difícil.
RESPEITO É MARCA
A sua família tem sido um grande pilar no seu percurso. Sem eles não teria sido capaz?
Qualquer angolano tem a família como grande pilar e não sou exceção. Tenho crescido nesta cultura, com estes valores. A minha família tem sido um grande pilar no meu percurso. Provavelmente teria sido capaz sem eles, mas com eles foi muito mais fácil.
Como é a relação com a sua irmã?
Óptima. A minha irmã é das pessoas mais próximas que tenho na vida, uma pessoa que partilha da mesma paixão que tenho pela moda. Temos ideias muito parecidas, embora tenhamos personalidades muito diferentes. Mas os valores são os mesmos. Sinto-me compreendido. Conversar com ela é sempre muito mais fácil do que com uma pessoa que não fala a mesma linguagem.

Sempre se deram bem, mesmo na adolescência?
Sim, sempre fomos muito amigos e fomos educados para que não fosse diferente.
E profissionalmente? Estão sempre de acordo?
Não. A minha irmã é uma pessoa de ideias muito próprias. Eu tenho uma agência de modelos, ela é estilista. Então tenho uma forma de ver as coisas, ela tem outra. Olhamos para as mesmas situações, mas de um prisma diferente. Mas temos capacidade de diálogo e no final conseguimos chegar a uma conclusão equilibrada.
Quando estão em desacordo quem cede primeiro?
Depende, de quem tem razão. As vezes eu, às vezes ela. Cada um apresenta os seus argumentos. Somos pessoas que nos deixamos convencer pela lógica.
Qual a marca que quer deixar na moda angolana?
É impossível sermos grandes se não fizermos as coisas com paixão. É completamente impossível chegarmos a qualquer patamar se não tivermos carácter. São as minhas maiores mensagens. Não fui eu que encontrei a moda em Angola e quando morrer vai continuar a existir moda em Angola. Mas tenho a certeza que, desde que apareceu a Hadja Models, as pessoas são tratadas como pessoas.
Como assim?
Quando comecei a fazer moda em Angola, lembro-me que os estilistas metiam a roupa no chão, em cima do capim. E nós apelámos sempre ao respeito. Dizemos que aquilo não é correcto, que a roupa deve estar sempre pendurada, que é preciso pessoas para dar atenção aos estilistas e aos manequins. Sempre nos batemos pelos direitos básicos, pela alimentação. Damos uma atenção especial aos estilistas e manequins. Por isso é que a Hadja Models é vista muitas vezes como uma família, porque há essa preocupação com a pessoa. Os manequins não são máquinas, são seres humanos.

Portanto, é nesse âmbito que quer ser recordado.
Era essa mensagem que gostava de deixar na moda angolana. Antes de sermos qualquer tipo de profissionais, somos pessoas e merecemos respeito. Não têm de desatar aos gritos connosco, não temos que nos humilhar para estarmos num desfile. Temos capacidade porque temos potencial. É por isso que ganhamos trabalho, não por sermos amigos de A, B, C ou D, porque bajulamos ou fizemos isto ou aquilo.
SAIR DA SOMBRA PARA ENCONTRAR O SOL
Com a gestão da agência consegue ter tempo para si?
Durante muito anos não consegui, mas desde há quatro anos consigo, porque também surgiu alguém na minha vida que me obrigou a ter cada vez mais tempo para mim e para a minha família. Agradeço muito por isso.
O que faz nos tempos livres?
Treino, cuido da minha família, da minha casa. Gosto de ler e pesquisar, para me manter actualizado.
Quem foi essa pessoa que o fez mudar?
Não costumo revelar as identidades das pessoas próximas a mim.
Alguma vez pensou seguir uma carreira desportiva como o seu pai, o futebolista Jesus?
Sim, por volta dos meus 12, 13 anos. Pensei e cheguei a treinar no Petro Atlético, mas não lido muito bem com cobranças. Quando chegava aos treinos, toda a gente me perguntava “então vais jogar futebol como o teu pai”, “tens de ser craque como o teu pai”, blá, blá, blá. Em menos de uma semana passou a vontade toda de querer jogar futebol e desisti.
Foi muita pressão?
Se há uma coisa que não suporto é ser comparado. As pessoas terem demasiadas expectativas sobre mim. E quando senti essa expectativa exagerada, aquela cobrança, aquela pressão, preferi sair. Talvez até pudesse ter sido um jogador de futebol brilhante, mas preferi trilhar o meu próprio caminho. Soube que não seria no futebol porque não queria viver à sombra de ninguém nessa eterna comparação.
Qual o modelo angolano que mais admira?
Os 186 modelos da Hadja Models.

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